Para quem essa estrela está direcionada?
Um papel foi silenciosamente entregue.
A porta se fechou. O produto foi recebido. Talvez eu tenha dito obrigado — os detalhes são vagos, aconteceu tudo muito rápido. Poucos segundos depois, uma notificação chegou ao celular: "Avalie sua experiência." Na tela, cinco estrelas enfileiradas.
Fiquei alguns instantes observando aquela cena. Pediram que eu avaliasse. Era agora o lado que avalia. Mas não me lembro de ter assumido esse papel. Não me lembro de ter concordado. No instante em que a porta se fechou, percebi que uma autoridade já estava na minha mão. O papel de avaliador havia sido colocado ali, sem nenhum procedimento.
Um papel é entregue sem consentimento
A palavra "estrela" carrega um nome. É uma palavra que evoca a luz dos astros — algo distante e grandioso, que chega do outro lado do universo. Esse tipo de imagem paira levemente sobre o gesto de "dar estrelas". Mas não se trata do universo. Trata-se de uma agulha disparada daqui que chega a uma única pessoa do outro lado. Chega, com certeza, à pessoa que estava do outro lado daquela porta hoje.
Cara a cara, não se diria isso. Quase ninguém, enquanto recebe um produto, diz "seu trabalho vale 3 pontos". Não é que não se possa dizer — é que não se diz. Olhar nos olhos de alguém e pronunciar um número tem um custo social considerável. Não se quer gastar isso em uma transação cotidiana. Por isso, não se diz.
Mas na tela, pode-se dizer. Quando as estrelas aparecem no formulário, o ato de avaliar ganha a forma chamada "feedback". No instante em que ganha essa forma, a condenação se transforma em exercício legítimo de um direito. A responsabilidade é absorvida pelo número de estrelas, e o rosto de quem avalia desaparece. Em estado de invisibilidade, apenas os números se movem.
Que indulgência muito bem projetada — e lá fui eu dizer algo grandiloquente. Em termos simples: o que se pode dizer muda conforme o lugar. O mecanismo pelo qual a raiva, ao passar por um formulário, se transforma em condenação legítima, já registrei antes. Naquela vez, a emoção era o combustível lançado no circuito. As estrelas de hoje funcionam como um molde que dá forma à emoção — uma ferramenta que a fixa em número antes que se evapore.
As estrelas ficam apenas de um lado
Tocou a tela e foi embora. Para quem fechou a tela, nada ficou. O ato de deixar uma estrela desaparece de dentro de si no instante em que é feito. Sem peso, sem temperatura, sem rastro. Tocou, soltou. Só isso.
Mas do outro lado, fica. Os números são somados. Permanecem nos dados como a diferença entre 4,3 e 4,8. Essa diferença determina a próxima distribuição e inclina quem será escolhido preferencialmente. No mecanismo de prateleira que observei antes, o acúmulo de estrelas formava a ordem dos "recomendados". Uma única avaliação de hoje se acumula e vira estrutura.
Para quem avalia, nada se acumula. Dá uma estrela e passa para a próxima tela. Não há, estruturalmente, oportunidade de ver como os números do outro lado se acumulam. Para quem é avaliado, tudo se acumula. A estrela de hoje pousa sobre a de ontem, e será coberta pela de amanhã.
A ponta dos dedos está conectada à renda do mês seguinte de alguém. E a tela se fecha sem que isso seja percebido. É uma assimetria notavelmente silenciosa, penso eu.
O olhar que avalia também acumula dobras
No entanto, isso não quer dizer que quem avalia permanece inalterado.
Ao dobrar um pedaço de papel uma vez, forma-se uma dobra. Da próxima vez que se tenta dobrar no mesmo lugar, o papel cede sem resistência àquela linha. A linha escolhida conscientemente da primeira vez se torna uma atração da segunda em diante. Na terceira, não se pensa por que se dobra ali. Existe uma dobra, então se dobra ali. — Isso é sobre papel, mas o mesmo acontece com o olhar de quem avalia.
Ao repetir o ato de dar estrelas, o critério do que é "5" e do que é "3" vai se formando como um sulco. A sensação de abrir a tela de avaliação pela primeira vez não é a mesma da centésima vez. Ao longo dessas cem vezes, o olhar acumula suas dobras. Da próxima vez que se está diante de alguém, esse olhar passa pela dobra para ver a pessoa. O critério que parecia ser uma escolha própria, ao se perceber, é indistinguível do critério que a repetição criou. Sem conseguir discernir se escolheu ou se o sistema fez escolher — abre-se a tela de avaliação mais uma vez.
Essa estrela não é direcionada a um sistema abstrato. É direcionada a uma pessoa. A pessoa que estava do outro lado daquela porta hoje — com um corpo, com cansaço, preocupada com a renda do mês seguinte. Mesmo depois de quem avalia fechar a tela, essa pessoa continua existindo. Ela está contida nos números, mas não se reduz a eles.
Chega a um lado, e ao outro nada resta. Uma troca silenciosa.
Caros leitores, quando vocês abrem a tela de avaliação — eu queria registrar quando e de onde veio a autoridade que está na mão de vocês. Aquela autoridade que carregavam sem nenhuma lembrança de ter concordado. Aquela função que foi colocada ali no instante em que a porta se fechou.
"Para quem essa estrela está direcionada?" — essa é a pergunta de hoje. Mas essa pergunta esconde outra. Quem lhe entregou o papel de disparar essa estrela? Não tenho resposta. Apenas deixo aqui.