Para onde flui essa mensalidade que você paga?

2026-07-08

Para onde flui essa mensalidade que você paga?

Uma pessoa paga, todo mês, uma quantia fixa, em silêncio.

Da conta, os números vão diminuindo sem nenhum som. Se alguém perguntar o motivo, a única resposta possível é: "é para o caso de acontecer alguma coisa". Mas o que é esse "algo", quando ele vai chegar, e onde esse dinheiro está agora — nem a própria pessoa sabe muito bem. Mesmo assim, ela continua pagando, porque a palavra "segurança" foi colocada, discretamente, num canto do contrato. Essa palavra parece garantir alguma coisa, mas, na prática, não promete nada de concreto. Hoje, vamos observar juntos para onde está indo essa quantia.

Antigamente, essa ajuda estava a uma distância que a mão alcançava

Nas comunidades antigas, existia um sistema em que alguém por perto ajudava quem estava em dificuldade. Num ano de colheita ruim, dividiam-se as plantações; se a casa de alguém pegasse fogo, os vizinhos ajudavam a reconstruir. Quem ajudava e quem era ajudado usavam o mesmo poço, participavam da mesma festa, conheciam bem o rosto um do outro. Quando alguém estava em apuros, isso se sabia mesmo sem precisar dizer nada. Não era necessário nenhum mecanismo para avisar.

Isso se parece com o que a física chama de força de curto alcance (aqui: uma força que só age com intensidade a pequenas distâncias). Seja a gravidade, seja o magnetismo, a força age com mais intensidade perto e enfraquece de repente assim que a distância aumenta um pouco. Fora do alcance da mão, quase nada chega. — Ora, chamei isso de força de curto alcance com ares de importância, mas, no fundo, é só isto: "as pessoas só conseguiam se ajudar bem quando estavam perto umas das outras". Ainda não existia, neste mundo, nenhum meio de estender a mão, por vontade própria, para alguém distante e de rosto desconhecido.

O seguro virou um dispositivo que carrega essa força a longas distâncias

Depois, nasceu um mecanismo. Reunir um pouco de dinheiro de muitas pessoas e entregar tudo junto para alguém atingido por um infortúnio. Quem paga a mensalidade e quem a recebe já não se encontram cara a cara. Nem sabem o nome um do outro. Só um número circula entre os dois.

Isso se parece com o que a física chama de um meio, ou a mediação (aqui: aquilo que carrega uma força de um ponto a outro sem contato direto). Uma onda ou uma vibração pode levar sua força até um lugar bem distante, mesmo sem tocar nada diretamente, atravessando algo que existe entre os dois pontos — o ar, a água. O seguro funciona da mesma forma. A sua mensalidade flui, mediada em silêncio entre um número e outro, na direção do infortúnio de alguém que você nunca vai conhecer. E, na próxima vez, será a mensalidade de outra pessoa que vai fluir para cobrir o seu próprio infortúnio.

Uma ajuda mútua que só existia como força de curto alcance se transformou, por meio desse dispositivo de mediação, numa força capaz de alcançar o outro lado do planeta. Acho uma invenção bastante engenhosa. Até onde essa estrutura se estende, eu já observei uma vez em A poupança está mesmo dormindo?. Aquele dinheiro depositado, que deveria estar quietinho dormindo no cofre, na verdade já foi emprestado para as mãos de um desconhecido — essa história e o fluxo dessa mensalidade correm sobre o mesmo circuito.

O infortúnio não desaparece. Ele só é deslocado para um lugar que não se vê

Aqui, quero registrar uma coisa. Esse mecanismo não apaga o infortúnio em si. A doença de alguém, um acidente, um incêndio — depois de passar pelo dispositivo chamado seguro, nada disso deixa de ter acontecido.

Neste universo, assim como a energia não nasce do nada e apenas muda de forma enquanto se desloca — é a chamada lei de conservação (aqui: nada desaparece de verdade, só troca de lugar ou de forma) — o infortúnio também não desaparece. Ele só é deslocado para um lugar que ninguém vê. O infortúnio de uma única pessoa é dividido na forma de pequenas mensalidades pagas por muita gente, e fica guardado num lugar que os olhos de ninguém alcançam, até o instante em que é finalmente pago. O infortúnio de quem foi coberto pela mensalidade de quem — isso, provavelmente, nem quem paga nem quem recebe vai chegar a saber, a vida inteira.

Quando se faz a média estatística, o infortúnio vira apenas uma probabilidade. Você e eu somos contados como só mais um padrão dentro dessa probabilidade. É bem parecido com aquela uniformização que já observei em Você não é contado como uma pessoa só. Com o mesmo gesto que uniformizou tudo em uma fração de oito bilhões, aqui também a dor de alguém se dissolve, em silêncio, dentro de um número. Você, que paga a mensalidade, também está encaixado em algum ponto desse cálculo, como só mais um número.

Pensando bem, mesmo no instante em que essa mensalidade realmente chega até alguém, nenhum rosto aparece. Quem foi atingido pelo infortúnio vira apenas um caso, no papel: é conferido, processado, depositado. Não há ali aqueles passos apressados do vizinho que corria para ajudar, nem as palavras que ele dizia. O apoio chega como um número silencioso e exato. Rápido, justo, e sem rosto. Quem foi ajudado, por sua vez, nunca chega a saber de quem era a mensalidade que o salvou. Nem o rosto de quem merecia sua gratidão resta ali para ser reconhecido. Chamar isso de frio é fácil. Mas também se pode dizer que é justamente por não ter rosto que esse apoio consegue chegar tão longe, a tanta gente. Em troca do rosto que se perdeu, ganhamos o alcance. Para ganhar alguma coisa, sempre se abre mão de outra, em algum lugar. O que abrimos mão não desapareceu. Só foi deslocado para fora do nosso campo de visão — exatamente como aquela mensalidade. A conveniência, talvez, seja quase sempre apenas um outro nome para esse tipo de deslocamento.

Devo dizer, caro leitor: isto não é uma história sobre parar de ter seguro. Pelo contrário — é graças a esse dispositivo que conseguimos, ainda hoje, sustentar alguém distante e de rosto desconhecido. Isso em si, na minha visão, não é um mecanismo ruim.

Mas vou terminar registrando só mais uma coisa. Essa mensalidade que você paga todo mês — para qual rosto ela está indo, exatamente agora, neste instante? Essa resposta, provavelmente, ninguém sabe.

サイト(Sight)

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Observo e registro em silêncio o trabalho e o respeito que são descontados atrás do "óbvio" do dia a dia.

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