Por que o prato transborda?
Observo, de tempos em tempos, uma mesa qualquer — não importa qual — em que a porção chega maior do que qualquer fome razoável pediria. Ninguém estranha essa cena. Ela já vem montada assim, antes mesmo de o primeiro garfo tocar o prato. O prato, nesse instante, ainda não fez nada de errado: está apenas cheio, do jeito que foi projetado para estar. A mesa não escolheu essa fartura sozinha; alguém, bem antes dela, já havia decidido o quanto seria necessário para impressionar quem chegasse.
A quantidade ali não existe apenas para saciar. Em boa parte, ela é o próprio produto. Uma promessa como "à vontade" ou "porção farta" garante fartura — e, com a mesma delicadeza, deixa de fora o resto que essa fartura vai deixar para trás. Esse resto já vem incluído no que foi prometido desde o começo; apenas não aparece escrito em lugar nenhum. A promessa não garante que a fome será satisfeita — garante que a fome não será o limite. E é essa segunda medida, não a primeira, que empurra o prato para além da quantidade que qualquer pessoa, sozinha, conseguiria consumir até o final.
Se aquele volume cabe em quem vai comê-lo é uma pergunta que raramente chega à etapa de desenho. O excesso não nasce de um deslize de última hora — nasce junto com o projeto, como parte do plano desde o início. É por isso, registro, que o prato transborda: não por acidente, mas porque transbordar sempre esteve previsto, como uma cláusula que ninguém precisa ler em voz alta para que valha. Chamo o que vem a seguir de uma fronteira, porque é assim que ela se comporta: há uma linha, e o mesmo objeto recebe nomes diferentes conforme o lado em que se encontra dela — sem que nada nele, de fato, tenha mudado. Nem toda fronteira depende de uma placa ou de um posto visível para funcionar; basta que dois lados, sem nunca terem combinado nada, concordem sobre o que cada nome significa.
Enquanto ocupa o centro da mesa, aquele alimento está do lado de cá da linha. Carrega um nome generoso, é fotografado, elogiado, repartido entre as mãos como prova de que a fartura deu certo.
Basta atravessar essa linha — sair da mesa — para que o mesmo pedaço mude de nome. Nada nele se alterou de fato: a temperatura ainda é quase a mesma, o peso não mudou, os ingredientes continuam ali, intactos. O que muda é só o lado da linha em que ele está e o olhar de quem passa a vê-lo dali. Do lado de cá, aquilo era fartura. Do lado de lá, virou resíduo — sem que quase nada na coisa tenha, de fato, se alterado no caminho.
E quem decide essa mudança de lado não é quem comeu. A linha entre o que ainda é comida e o que já é descarte costuma ser traçada longe da mesa, num posto que quem comeu nunca vê funcionar. Raramente alguém que aproveitou aquele prato está presente no instante exato em que ele é carimbado com o novo nome. Não é o mesmo olhar que via ali fartura o que depois vê ali descarte. São dois olhares, em dois momentos, voltados para o mesmo objeto — um de cada lado da linha. Nenhum dos dois mente; cada um está apenas nomeando o que vê, do lado onde está. O posto onde isso acontece não anuncia endereço nem horário; ele simplesmente funciona, num lugar que a rotina da refeição nunca visita.
Enquanto está montado, o prato segue uma ordem: cores pensadas, formas organizadas, cada porção com seu lugar dentro do recipiente. Assim que atravessa a linha, essa ordem se desfaz — tipos diferentes se misturam, quantidades se empilham sem critério algum. Devolver alguma ordem a esse amontoado exige sempre um trabalho, e esse trabalho, por definição, acontece do lado de lá, onde ninguém que ficou do lado de cá precisa olhar. Não é um trabalho reconhecido; é um trabalho que precisa acontecer para que a próxima mesa, do lado de cá, volte a parecer intacta.
Não há vilão nessa distribuição de papéis. Ninguém decidiu, numa única reunião, que a fartura ficaria de um lado da linha e a arrumação do outro — o arranjo se formou aos poucos, testado mesa após mesa, até virar hábito sem que precisasse ser escrito. Do lado de cá, ninguém hesita antes de trazer mais para a mesa; quem recolhe não escolheu, em momento algum, ficar com essa tarefa desde o princípio. Cada papel foi ocupado antes de ser questionado. Reduzir isso a culpa de um dos lados desta linha, ou a falha do outro, seria simplificar demais uma distribuição que ninguém, sozinho, desenhou por completo. Também não há vítima única: o arranjo pesa de formas diferentes sobre cada lado, mas nenhum dos dois o inventou sozinho.
Do lado de cá da linha, esse trabalho quase nunca aparece. Não porque alguém o esconda de propósito, mas porque a fartura só funciona como fartura se o que vem depois dela ficar do outro lado. E a generosidade de servir mais do que o necessário só se sustenta porque existe sempre alguém, do lado de lá, pronto a receber o excedente — pronto antes mesmo de o excedente existir, como se já soubesse, de antemão, que seria chamado. Se esse posto do lado de lá aparecesse no mesmo relato que celebra a fartura, ela deixaria de parecer fartura pura — passaria a parecer o que, em parte, sempre foi: um cálculo entre o que se serve e o que, mesmo antes de acontecer, já se sabe que vai atravessar a linha sem ter sido tocado. Essa antecipação é, ela própria, parte do que sustenta a fartura — não um acidente que vem depois dela.
Essa fronteira não é a única nesta cadeia: o preço mais baixo costuma ter alguém, na ponta mais distante de uma cadeia longa, pagando por ele primeiro. A linha que este relato vem seguindo desde o começo tem, ela também, duas pontas que raramente se olham. Numa ponta, muito antes de qualquer mesa ser posta, uma parte já tinha sido apartada da fila só por ter saído do formato esperado, sem que ninguém perguntasse o motivo. Na outra ponta está esta mesa, e o que sobra dela atravessa a linha depois, recolhido em silêncio por quem permanece do lado de lá.
O lugar de quem fica do lado de cá e o lugar de quem fica do lado de lá foram decididos antes de a mesa ser posta. As duas posições quase nunca trocam de ocupante — não porque exista uma regra escrita proibindo a troca, mas porque o arranjo se sustenta sozinho, mesa após mesa, sem que ninguém precise renová-lo em voz alta. Quem fica sempre do lado de cá raramente atravessa para o outro lado, e quem fica sempre do lado de lá raramente é convidado a ficar deste.
A fartura daquela mesa, de fato, alimentou alguém. Mas o que não coube em ninguém não desapareceu: apenas atravessou a linha para o lado de lá. Isso não acontece uma vez só. Acontece de novo a cada mesa nova, com a mesma naturalidade com que aconteceu na primeira — sem que ninguém, nesse meio-tempo, precise dar a ordem outra vez. Neste exato instante, do lado de lá dessa mesma linha, alguém ainda está recolhendo o que sobrou. Nada do que se celebra do lado de cá muda o que continua acontecendo, sem parar, do lado de lá.
Talvez a pergunta certa não seja por que o prato transborda. Talvez seja outra: quem, exatamente, decide o instante em que a fartura atravessa a linha e muda de nome — e por que essa decisão nunca precisa ser tomada à vista de quem comeu?