Quanto da imobilidade some se o nome dela muda?
Há um instante em que um corpo se abaixa diante de outro e permanece ali, sem se levantar de imediato. Em um lugar, esse instante recebe o nome de deferência. Em outro lugar, o mesmo instante recebe o nome de sujeição. Nada muda no corpo para que o nome mude.
Mesmo que fosse você ali, dobrado daquele jeito, a exigência feita ao corpo seria a mesma nos dois lugares. A curva é a mesma curva. A demora antes de poder se levantar é a mesma demora. Às vezes acrescenta-se peso por cima, e a demora só aumenta. Em um dos casos essa demora é tratada como parte do que se combinou; em outro, é tratada como a própria finalidade da ordem dada. Quem está de pé ocupa, nos dois, exatamente a mesma posição. O nome vem do lugar; a demora vem do corpo.
Existe uma peça que serve para fins contrários sem mudar de forma: a escora. Encostada contra o que ameaça cair, ela sustenta. Encostada do outro lado de alguma coisa que não deveria se mover, ela prende. Nos dois casos, o que a escora recebe é compressão: ela fica espremida entre dois pontos e tem de aguentar sem ceder. A escora só serve empurrada: quando é puxada, não sustenta nem prende coisa alguma. É sempre pressionada contra algo, e é disso que vem a sua utilidade inteira. Por isso os dois usos lhe chegam pela mesma porta. A escora não distingue, porque não tem como distinguir, se está segurando uma queda ou impedindo uma fuga. O esforço que ela recebe é o mesmo nos dois trabalhos, e o nome do serviço vem de quem a colocou ali.
No corpo que permanece na posição baixa, alguma coisa trabalha do mesmo jeito. É a mesma imobilidade — o mesmo peso concentrado num ponto só do corpo — que, num lugar, sustenta a relação entre os corpos, e, no outro, os prende exatamente ali. Chame-se essa imobilidade de deferência ou chame-se de sujeição, a quantidade de não poder se mexer não cresce nem diminui. O nome troca de lado; o peso fica onde já estava.
Onde a posição é chamada de deferência, a imobilidade ganha um segundo emprego. Ficar ali sem pressa passa a ser lido como sinal de que a vigilância não é necessária, como se a própria demora já dissesse que a confiança foi dada de antemão. Só que essa leitura precisa ser feita por alguém, em algum momento, para existir. A imobilidade não fala por conta própria; alguém decide, por ela, o que ela quer dizer.
Onde a mesma posição é imposta como sujeição, essa leitura não precisa acontecer. Ali, a imobilidade já é o objetivo inteiro, e não precisa virar confiança nem cuidado para funcionar. Ela trabalha sozinha, sem passar por tradução, e talvez funcione tão bem justamente por isso: não deixa nada para interpretar.
Essa leitura, quando existe, quase sempre é feita por quem está de pé, nunca por quem está dobrado. É de cima que se decide se aquela imobilidade quer dizer confiança ou quer dizer ameaça já controlada. De baixo, a imobilidade é a mesma coisa nos dois casos: um corpo que não pode se levantar até que outro autorize.
Quanto tempo um corpo aguenta ficar assim não depende do lugar nem do nome. Depende das condições do próprio corpo, de anos acumulados, de coisas que ninguém consultou antes de decidir que aquela seria a forma correta. Chega um momento em que o corpo não entrega mais o que a forma pede, e a forma continua sendo esperada dele assim mesmo, por hábito, porque sempre foi esperada ali. O que ela pede, nesse momento, continua sendo exatamente o que pedia antes. A reserva com que se paga aquela demora é que foi encolhendo, enquanto a demora seguiu do mesmo tamanho.
A mesma posição se chama deferência num lugar e sujeição no outro, e a quantidade de não poder se mexer é igual nos dois.
O que se firmou, ao longo do tempo, como a forma correta de demonstrar deferência é, ao mesmo tempo, o que impede o outro corpo de se levantar antes da hora combinada. A mesma curva do corpo produz os dois efeitos de uma vez, e o costume só trata do primeiro. Quem exige essa posição, na maior parte dos lugares onde ela é pedida como deferência, age dentro do esperado para aquele espaço — o ato de pedi-la ali integra o costume comum, e o de recebê-la, também. O que a fluidez desse hábito deixa de fora é o fato de que a exigência, mesmo feita com total naturalidade, deposita um peso sobre um corpo só, e nunca sobre o outro.
O que os nomes produzem fica todo do lado da conversa. Onde a posição se chama deferência, há uma explicação pronta para quem perguntar; onde se chama sujeição, ninguém conta com a pergunta. Em nenhum dos dois casos essa conversa desce até o corpo que sustenta a posição.
Em nenhum dos lugares quem impõe a posição a assume junto. A imobilidade, nos dois casos, cabe a um lado só; o outro permanece livre para caminhar até ela, olhar de perto e ir embora de novo. É essa liberdade de ida e volta que separa quem dá o nome de quem apenas o recebe.
Há um registro anterior sobre o instante em que uma etapa de um trabalho passa a ser feita por outras mãos: o esforço que entra de um lado sai do outro com a direção trocada. Aqui não há mãos de troca. A carga permanece no mesmo corpo, sustentada pela mesma imobilidade que já a sustentava antes de receber qualquer nome. O peso fica. Só o nome escrito sobre ele é trocado.
A escora que sustenta e a escora que prende aguentam a mesma compressão, e o nome dado ao serviço não tira nada do que a peça tem de segurar. Com o corpo na posição baixa acontece a mesma coisa. A palavra chega depois, escolhida por quem está de pé, e não diminui em nada a demora que já estava instalada no corpo. Chamar aquilo de deferência é uma decisão tomada em cima. O que é preciso aguentar fica embaixo, inteiro, e a decisão não encosta nele.