Ninguém roubou. Então, por que continua diminuindo?
Ninguém rouba nada de uma carteira comum, e ainda assim algo nela fica menor. Observo uma: as notas guardadas têm exatamente os números que tinham há um ano — nenhum algarismo foi apagado, nenhum zero sumiu da impressão. Mesmo assim, quem carrega essa carteira já reparou que as mesmas notas já não compram a mesma quantidade de coisas de antes. Não há fechadura arrombada, não há sinal de que alguém tenha aberto essa carteira à noite e tirado algo de dentro. E, no entanto, algo ali ficou menor.
É uma cortesia curiosa a que rege as prateleiras de uma loja: quando um preço muda, isso vem sempre anunciado. A etiqueta antiga é coberta por uma nova, às vezes com um aviso ao lado, como se fosse falta de educação impor uma mudança sem antes preparar quem vai pagá-la. Isso é, a seu modo, um gesto de respeito, por menor que seja — avisar antes de mudar as regras é uma forma modesta de tratar o outro como alguém que merece saber com antecedência.
O curioso é que essa cortesia não atravessa o balcão. O próprio dinheiro que se usa para pagar aquela etiqueta vai emagrecendo por dentro, sem que nenhum aviso apareça em lugar nenhum. Não há etiqueta colada sobre a nota, não há recado preso à carteira dizendo que o que está guardado ali hoje vale bem menos do que valia na véspera. A mudança do preço é visível a qualquer um que passe pela loja; a mudança do próprio dinheiro acontece num lugar que ninguém está olhando.
Registro isto com cuidado, porque o número em si não muda. O algarismo impresso continua sendo o mesmo algarismo. O que muda é a espessura daquilo que esse número sustenta — a cifra continua a mesma, mas o que ela alcança foi ficando mais fino. Dois papéis podem carregar o mesmo valor escrito e um conteúdo diferente; é mais ou menos isso que acontece aqui, só que sem nenhuma etiqueta para avisar.
Uma parte disso eu consigo explicar sem mistério nenhum. Quando a quantidade de algo aumenta, o pedaço que cabe a cada unidade fica menor — não porque alguém decidiu cortar fatias mais finas de propósito, mas porque a mão que corta simplesmente continua se movendo. Não vejo um vilão nisso. Apenas um movimento contínuo, sem intenção de prejudicar ninguém em especial — que ainda assim prejudica alguém.
Isso talvez explique por que a mudança é tão difícil de flagrar. Uma sombra projetada no chão, vista por um único minuto, pareceria completamente parada. Só depois de horas — comparando onde ela estava com onde está agora — fica claro que ocupa um lugar totalmente diferente. Ninguém empurra essa sombra: quem se move é a luz, e a sombra apenas segue, sem vontade própria. Ainda assim, o efeito é o mesmo — ela anda devagar demais para que um único olhar a flagre em movimento. Suspeito que aconteça algo parecido aqui: num único dia, ninguém percebe o dinheiro emagrecendo. É preciso um intervalo de alguns anos para que a diferença finalmente ganhe contorno.
Há ainda algo mais estranho. Uma quantia guardada é, em tese, um trabalho já encerrado — alguém trabalhou, recebeu o pagamento correspondente e decidiu não gastá-lo, apenas deixá-lo ali. Essa negociação deveria estar fechada; bastaria guardar e esperar tranquilo. Só que as coisas não acontecem assim. O que fica guardado encolhe do mesmo jeito, sem qualquer marca de violação, sem que nada tenha sido roubado dali. Ninguém tocou naquilo. Ainda assim, o valor que sobra no fim não é mais o valor que foi deixado ali no início. É como se um pagamento já feito fosse cobrado uma segunda vez, sem que ninguém tenha pedido essa cobrança — um tipo estranho de conta que se reabre sozinha.
Há uma ligação direta com isto. Uma parte considerável do dinheiro colocado de lado não fica de fato parada à espera: pouco depois de ser depositada, ela vai trabalhar nas mãos de alguém que a toma emprestada e continua em movimento sem descanso. O que noto agora vai um passo além: mesmo quando o valor é mantido de fato intocado, sem circular para lugar nenhum, esse emagrecimento acontece de qualquer forma. Ficar parado não protege nada.
Fica então a pergunta que mais me interessa: se nada foi roubado, se o que sustenta esse valor simplesmente diminuiu sozinho, para onde foi o que desapareceu nesse percurso? O padrão é sempre o mesmo: essa quantia não desaparece — ela passa a integrar o número de outra pessoa. Por um instante, parece que estou descrevendo alguma engrenagem secreta movendo tudo por trás das coisas. Soa grandioso escrito assim. Na prática, quer dizer só que alguém, em algum lugar, ficou com o que faltou aqui — geralmente quem teve acesso primeiro ao valor recém-criado, ou quem o pegou emprestado antes de qualquer outra pessoa notar sua existência. O caminho até lá é longo e cheio de curvas que não consigo acompanhar por inteiro.
Isso se conecta a algo que toca a própria origem do dinheiro. Quase todo o dinheiro que está em uso hoje nasceu no instante em que alguém contraiu um empréstimo, de modo que, por trás de boa parte dos números guardados, costuma haver alguém carregando uma promessa equivalente — um rosto que quase nunca aparece nesse retrato. Talvez seja para esse lugar sem rosto que o que minguou esteja indo, devagar, sem pressa nenhuma.
Gostaria de encerrar dizendo que encontrei o responsável por tudo isso. Seria satisfatório apontar um culpado, fechar o caso, seguir para a próxima observação. Mas não foi isso que encontrei. Ninguém arrombou a fechadura de ninguém. Ninguém colocou a mão onde não devia. E, no entanto, o valor mudou de lugar de qualquer forma — devagar o bastante para que quase ninguém percebesse o momento exato da mudança. É como a sombra que mencionei: ninguém a move, e mesmo assim ela já não está onde estava. Talvez seja mais fácil aceitar quando existe um ladrão: alguém para culpar, alguém para prender, um caso que se fecha. O que fica, no fim, é mais incômodo do que isso — amplo demais, silencioso demais, para caber num único nome.
Ninguém roubou. E, ainda assim, continua diminuindo. Fico apenas com a pergunta de quem está do outro lado, recebendo o que falta deste lado — e com a suspeita de que essa pergunta não tem uma resposta que caiba de uma vez só.