Alguém já escreveu que o lastro não é carga?
Há um trajeto que quase ninguém pensa em nomear. Uma pessoa sai de um lugar, chega a outro onde vai trabalhar, e mais tarde faz o caminho de volta. Entre uma coisa e outra, o corpo está ocupado nisso — ora sentado, ora em pé, sem que isso mude nada. O que importa é que, enquanto isso ocorre, nenhuma outra coisa acontece junto. Esse intervalo existe, tem duração e ocupa o corpo de algum jeito, e ainda assim não encontra onde ser escrito.
Registrei isso em situações bem diferentes entre si, mas todas com a mesma lacuna no mesmo lugar. Quem organiza as horas de trabalho começa a contagem na chegada: o que veio antes fica de fora, como se ainda não tivesse começado nada. O trajeto nunca chega a entrar na soma: a contagem, ali, começa depois.
E o outro lado não é diferente. Quem organiza o tempo de descanso também não recebe esse intervalo. Um período de descanso, para ser contado como tal, normalmente supõe que a pessoa esteja livre — parada, solta, disponível para qualquer coisa ou para nada. Mas, durante o trajeto, isso não é verdade: a pessoa está ocupada com o próprio deslocamento, atenta a ele, incapaz de simplesmente não fazer nada. Por essa razão, esse tempo também não entra nos registros de descanso. Ele não se encaixa na definição do que conta como parar.
Uma contagem de horas trabalhadas e uma contagem de horas de descanso, somadas, deveriam, em teoria, cobrir o dia inteiro sem deixar buracos — cada intervalo caindo em uma ou em outra, sem sobra. Não é isso que acontece. Entre as duas, sobra exatamente o trajeto. Nenhuma das duas o reivindica, e nenhuma delas seria capaz de fazê-lo sem deixar de ser o que é: uma mede trabalho, a outra mede repouso, e o trajeto não é nem uma coisa nem outra.
Já observei antes um custo que já foi preço, e que a cobrança deixou de mostrar, e isso ajuda a pensar num contraste simples. Quando um objeto percorre uma distância, alguém cobra por isso: percorrer espaço, para uma carga, tem preço — quanto mais longe, mais se cobra. É quase automático: a distância vale algo quando é uma coisa que se move de um ponto a outro. Mas quando é a própria pessoa que se desloca, pela mesma distância, esse valor nunca chega a ser calculado. Ali não houve preço que alguém tenha apagado depois: o preço não chegou a existir. A distância continua sendo a mesma distância. O que muda é só quem está se movendo: se é algo que outra pessoa carrega, ou se é alguém se deslocando por conta própria. É apenas essa diferença que decide se existe um número associado ao percurso.
Pensei nisso lembrando de um detalhe que qualquer navio carrega e que raramente aparece nas notas de transporte: o lastro. Um navio precisa de peso extra guardado no casco só para não virar, para se manter estável mesmo vazio ou com carga leve. Esse peso não é mercadoria — não vai para lugar nenhum como produto, ninguém recebe pagamento por entregá-lo do outro lado. Ainda assim, sem ele, o navio simplesmente não sai do lugar com segurança. Carregar lastro tem custo real: o casco afunda mais na água, o motor consome mais combustível para vencer esse peso a mais. E, apesar disso, nenhuma lista do que se cobra pelo transporte traz o lastro como item. Ele está lá, pesando, sendo necessário, e ao mesmo tempo ausente de qualquer conta que alguém apresente a outro.
O trajeto até o trabalho tem esse mesmo formato: é necessário, tem custo — de tempo, de atenção, do corpo ocupado por um intervalo inteiro — mas não é o que gera o pagamento. Ninguém cobra pelo deslocamento em si, do mesmo jeito que ninguém cobra pelo lastro que um navio precisa carregar. Os dois existem para que outra coisa possa acontecer depois. Nenhum dos dois é, ele mesmo, o que está sendo pago.
Agora, o que mais me deteve nesses registros: não encontrei quem tenha decidido isso. Não há uma norma escrita dizendo que o trajeto fica de fora. O que existe são duas contagens, feitas por partes diferentes, em momentos diferentes, cada uma olhando apenas para o que está dentro do seu próprio campo de visão. Para quem soma as horas de trabalho, o que acontece antes da chegada simplesmente não aparece ali — nunca esteve naquele campo. Para quem soma o tempo de descanso, o que acontece depois da saída de casa também não entra ali, pela razão oposta: já deixou de ser parar, já é outra coisa. As duas contagens não brigam entre si. Elas nem se encontram. Não há, em nenhum dos dois, algo escrito determinando que esse intervalo fique de fora. Há apenas duas tarefas diferentes, cumpridas dentro do que lhes cabe, e nenhuma delas jamais chegou a incluir esse intervalo.
Não estou dizendo que a pessoa deveria deixar de se deslocar — isso seria absurdo, o trabalho normalmente fica em algum lugar que não é a própria casa. Também não estou sugerindo que haja, em algum lugar, uma intenção por trás disso. O que registro é simples: o tempo foi gasto. E é justamente por ser simples que ninguém precisa se ocupar disso. O corpo esteve ocupado, incapaz de fazer qualquer outra coisa durante aquele intervalo. E, apesar disso, esse tempo gasto não pertence a nenhuma das duas contagens que, juntas, deveriam cobrir a vida inteira de alguém.
Há um segundo lugar onde o lastro ajuda a pensar nisso. Quando se escolhe onde morar, escolhe-se também o tamanho desse trajeto — mais perto ou mais longe, mais rápido ou mais devagar. Há, sobre isso, um outro registro que tratou de uma liberdade que está no papel, e de um custo de usá-la que não está. Na escolha de onde morar, o que não é entregue é a tabela inteira. Ninguém entrega, junto com a decisão de onde morar, um documento mostrando o que está sendo trocado por quê. É como decidir quanto lastro um navio vai carregar sem nunca ver escrito, em nenhum papel, quanto combustível extra aquele peso vai custar ao longo da viagem inteira. A decisão é tomada antes que o custo se manifeste — e, quando ele aparece, é em outro lugar, espalhado, difícil de identificar com precisão.
Onde fica, então, o tempo que passa entre sair e chegar? Ele continua acontecendo todos os dias, na mesma medida, e continua sendo lido de dois modos ao mesmo tempo: quem soma o trabalho o lê como algo que ainda pertence ao lado de casa; quem soma o descanso o lê como algo que já pertence ao lado do trabalho. As duas leituras se sustentam sozinhas, e as duas empurram a mesma hora para o outro lado.
E enquanto cada lado segue lendo essa hora como sendo do outro, de quem ela é?