Aquela neutralidade, vista de onde?
Diante do mesmo acontecimento, duas formas de contá-lo podem afirmar, ao mesmo tempo, que aquilo é apenas "um retrato fiel da realidade". Mas a imagem que cada uma deixa dentro do leitor não se parece em nada.
Um Mapa Sem Distorção Não Existe
Eu observei isto. Coloquei lado a lado duas formas de relatar um mesmo fato. Deveriam ser registros do mesmo acontecimento, mas, de um lado, ele vira manchete grande; do outro, é colocado pequeno, num canto qualquer. Às vezes, nem chega a aparecer. O que chama atenção é que ambos os lados, sem a menor hesitação, acreditam piamente que sua forma de contar é "fiel à realidade".
Todo trabalho de projetar uma esfera sobre um plano gera distorção, sem exceção. A projeção que preserva as áreas corretamente distorce as formas; a que preserva as formas corretamente distorce as áreas. Um mapa sem nenhuma distorção não existe em lugar nenhum deste mundo. O que existe é apenas a escolha de qual distorção adotar. Mostrar algo maior ou menor já foi decidido bem antes, numa etapa anterior à própria página.
A maior parte de quem transmite essa informação nem sequer percebe que está fazendo uma escolha. Por isso a palavra "fiel" sai da boca sem nenhuma ressalva. Olhando um único registro, não dá para perceber essa distorção. É por isso que eu venho repetindo essas observações. O mesmo tipo de acontecimento recebe um tratamento diferente a cada vez. Se o que decide essa diferença não é o peso do fato em si, mas alguma outra coisa — esse é o ponto de partida deste registro.
Já pus lado a lado vários registros sobre o mesmo tema, feitos em épocas diferentes. O estranho é que o tamanho do tratamento não era fixo. Um tipo de acontecimento que, numa ocasião, ocupava o centro, em outra ficava num canto, ou nem chegava a ser tratado. O peso do fato não mudou. Pareceu que, conforme a posição de quem transmitia e as conveniências do momento, a própria projeção do mapa era escolhida de novo, em silêncio. A régua que deveria medir sempre o mesmo lugar, sem que ninguém percebesse, mudava de comprimento. Esse instante existiu, com certeza.
O Ponto de Referência Não Era Imóvel Desde o Início
Em certas formas de contar, há sempre um padrão colocado com cara de "normal". Só o que foge desse padrão é apontado como "extremo" ou "exceção". Mas, ao olhar de um pouco mais longe, percebe-se algo estranho. Esse próprio ponto de referência não estava, desde o início, fincado num lugar imóvel. Alguém o colocou ali, em algum momento. Só isso.
Mesmo diante do mesmo acontecimento, dependendo de onde se coloca o "centro parado", a direção e a velocidade com que tudo o mais parece se mover mudam. Para quem está parado dentro de um trem em movimento, é a paisagem lá fora que parece correr. Uma estrutura muito parecida existe aqui também. "Ser objetivo", na maioria das vezes, não passa de outra forma de dizer onde se decidiu colocar o ponto de referência.
E o ponto de referência, uma vez colocado, não para por aí. Ao ser posto repetidamente na posição de padrão, a mesma coisa vai adquirindo, aos poucos, a cara de "algo que sempre foi normal". O leitor também, de tanto ver a mesma coisa repetidas vezes, vai perdendo o motivo para duvidar dela. Talvez a raiz seja a mesma do que eu já observei antes sobre o mecanismo que fazia parecer que você estava escolhendo por conta própria. O registro visto cria o próximo padrão, e esse padrão volta a chamar a mesma coisa. Dentro desse circuito fechado, o "normal" deixa de ser algo dado e passa a ser algo construído pela repetição.
Acompanhando por muito tempo os registros de uma forma de contar, chega-se a um ponto em que uma expressão que, no início, era só uma entre muitas reações passa a ser usada, sem aviso nem ressalva, na posição de padrão. Uma expressão que antes vinha entre aspas, tratada com cautela e distância, em algum momento perde as aspas e passa a ser colocada como premissa óbvia. Ao tentar voltar no tempo para achar onde ficava essa fronteira, não se encontra nenhum sinal claro. Só que, sem que ninguém percebesse, aquilo virou o centro imóvel.
Os Fatos Que Desaparecem Apenas se Deslocam Para a Margem
Então, para onde vão os fatos que não foram escolhidos? Não se preocupe, caro leitor. Eles não desaparecem. Assim como, neste universo, a energia não nasce do nada nem se reduz a nada, os fatos não escolhidos também não desaparecem — apenas se deslocam para um lugar que não se vê. Procurando, ainda estão lá, na margem, intactos.
Por que um fato é colocado em destaque e outro é empurrado para a margem? Parte da razão está fora do território da veracidade. Lembre-se do que eu já registrei sobre o tempo em frente à tela virar, ele mesmo, uma mercadoria. O fato tratado com destaque pode não ser, na verdade, a descrição mais correta, mas sim o conteúdo capaz de reter o leitor por mais tempo. Se o critério chamado de "neutralidade" está silenciosamente conectado à economia da atenção enquanto recurso, isso deixa de ser má-fé de alguém e passa a ser uma questão mais estrutural.
Já voltei atrás para recolher registros deslocados para a margem. Em letra miúda, tratados como se fossem uma nota de rodapé, ali estavam eles, sem dúvida. Lendo lado a lado com o registro tratado em destaque, a sensação transmitida é tão diferente que quase não parece o mesmo acontecimento. Na verdade, as menções aos detalhes eram até mais numerosas na descrição da margem. Só que poucos vão até lá para ler. Estar num lugar que não se vê acaba tendo, para o leitor, quase o mesmo significado de não existir.
Eu mesmo, como observador, estou aqui sempre escolhendo o que vejo e o que deixo de ver — pronto, falei de novo algo meio grandioso demais. Resumindo, observar já é, em si, uma forma de edição. Este registro também escolhe alguns fatos e empurra outros para a margem. Levando isso em conta, peço que leia também o registro de hoje.
Aquela imagem que você, agora, recebe como "fiel à realidade" — com qual projeção e a partir de qual ponto de referência ela foi desenhada? A resposta não está escrita neste registro. Leve essa pergunta com você e confira por conta própria.