Quando Você Não Consegue Parar de Olhar para a Tela, o Que Está Acontecendo?
Levantei a cabeça de uma tela mais tarde do que pretendia, e o relógio marcava uma hora que eu não tinha decidido gastar. Não houve um momento em que alguém me prendeu ali. Ninguém escondeu a porta. Só fiquei, e o tempo foi embora sem pedir licença.
A intenção, no começo, era simples: só mais um. Em algum ponto do meio do caminho, porém, parei de contar. Não foi uma escolha guardada na memória — foi uma contagem que, silenciosamente, deixou de acontecer.
Não se trata de ter sido enganado. Duvidar de uma tela é fácil, e a dúvida sozinha não explica por que a mesma coisa acontece de novo no dia seguinte. O que vale registrar aqui não é o engano, é o mecanismo — a engenharia fina que transforma "só mais um" em uma hora inteira sem que ninguém precise mentir para você uma única vez.
O primeiro pedaço dessa engenharia funciona assim: um vídeo termina, e o próximo começa sozinho, sem que você tenha decidido nada. A decisão de assistir foi tirada de você e devolvida trocada: agora só resta a decisão de parar. Um corpo em movimento permanece em movimento até que uma força externa o detenha, e essa força, aqui, só pode vir de um lugar — de dentro de você mesmo, na forma de um gesto pequeno e deliberado. Quem projetou esse sistema conhece bem essa física: construiu algo que, por padrão, segue andando sozinho, e reservou para você, e só para você, o trabalho de fazer a coisa parar. Enquanto esse gesto não acontece, o sistema segue girando, e o esforço de interromper algo que ninguém pediu que começasse fica sempre do mesmo lado.
Chamam isso de comodidade, e em parte é verdade — ninguém sente falta de levantar para trocar de canal. Mas toda comodidade tem um lado que não aparece na palavra: o mesmo movimento que poupa seu esforço também poupa o sistema do risco de que você pare. Facilitar o continuar e dificultar o parar não são dois efeitos separados do mesmo desenho — são o mesmo efeito, visto de dois ângulos.
Havia um tempo em que continuar assistindo custava esforço. Levantar, trocar o disco, escolher de novo, esperar. Cada uma dessas pausas era um pequeno degrau, e nesse degrau havia espaço para uma pergunta simples: ainda quero isso? Hoje esse degrau foi lixado até desaparecer. Entre o fim de uma coisa e o começo da próxima não sobra costura nenhuma — o fim deixou de ter cara de fim. As preferências, aliás, já foram calculadas antes de você chegar até elas: o próximo prato já está na sua frente antes que a fome apareça. E o próprio limite, aquele ponto em que dizer "chega" fazia sentido, também foi apagado aos poucos. Descer por essa tela lembra descer por um poço sem fundo visível — por mais que se desça, sempre existe mais um palmo abaixo do último que se viu. Apagar o limite, no fim das contas, é apagar, um de cada vez, os pequenos instantes em que você voltaria a si.
Vale registrar uma diferença antes de seguir adiante. Um custo, como venho registrando nesta série, raramente desaparece — ele muda de forma, muda de endereço, e o peso reaparece em outro ponto da cadeia. O dinheiro obedece a essa mesma lei de conservação: perdido aqui, pode ser reconquistado ali, numa segunda tentativa, num próximo salário. O tempo não. Ele se comporta mais como a seta que a física descreve apontando sempre para a frente, nunca para trás: uma hora dissolvida numa tela não fica guardada em lugar nenhum esperando para ser reconquistada. Ela simplesmente deixou de existir como algo ainda por vir. É uma perda de um tipo diferente das outras — e talvez seja por isso que ela pesa tão pouco no momento e tanto depois.
Este caderno já esteve nesse mesmo território outras vezes, de ângulos diferentes. Registrei uma etiqueta que apagava um custo com apenas duas palavras, e mostrei como a conta reaparecia intacta nos últimos metros que alguém percorria a pé, longe da tela onde o preço aparecia. Registrei também um preço baixo que já chegava cortado, decidido bem longe, numa distância grande o bastante para que ninguém, do lado de cá, sentisse o peso do corte. Nos dois casos, quem pagava a conta estava do outro lado de uma distância confortável. Aqui não existe essa distância. A conta não é repassada a mais ninguém na cadeia: ela fica exatamente onde a tela está sendo olhada.
Toda essa engenharia — o algoritmo que aprende o seu gosto antes de você, a fila infinita, a ausência cuidadosa de qualquer atrito — roda, em geral, sem custar um centavo a quem assiste. Isso deveria soar estranho. Nada tão bem construído, com tanta gente trabalhando para deixá-lo tão liso, costuma ser distribuído de graça. Alguém está pagando essa conta, e vale perguntar quem.
A mesma mão que escreve este registro também já foi atrás do próximo vídeo antes de terminar de pensar sobre o assunto. Não digo isso como confissão engraçadinha; digo porque observar de fora só funciona até certo ponto, e este é o ponto em que o observador percebe que está dentro do próprio experimento. Também não estou dizendo que alguém deveria parar. Alguém, nesta hora exata, está sendo salvo por esses mesmos minutos — um fim de dia difícil que fica um pouco mais leve diante de uma tela que, na aparência, não pede nada em troca. O prazer foi real. E, ao mesmo tempo, do outro lado dessa mesma hora, alguém ganhou algo com o tempo que já não estava sendo contado. As duas coisas acontecem juntas, e nenhuma delas cancela a outra por decreto de quem está do lado de fora.
Isso nos devolve à pergunta de quem paga: o produto exposto ali nunca foi o vídeo. O produto é você — o tanto de tempo que se deixa escapar e o tanto de atenção que a tela consegue prender antes que alguém perceba. Isso é medido, comparado, vendido adiante para quem quiser saber quanto vale um minuto de atenção alheia. Quem se senta ali acha que é o cliente da loja. Talvez seja, na verdade, a mercadoria exposta na prateleira — e uma prateleira, por definição, nunca avisa quando alguém está sendo posto nela.