Por que o tempo parado nunca teve uma coluna própria?
Ninguém pergunta como alguém consegue responder assim que é chamado, sem intervalo perceptível entre o pedido e a resposta. A rapidez vira reputação, e a reputação apaga a pergunta seguinte, que é mais interessante: de onde vem essa velocidade toda?
Não vem do momento do chamado. Vem de antes dele. Quem responde na hora só responde na hora porque já estava ali quando ainda não havia chamado nenhum. Quem sai depois de ouvir o próprio nome já chega atrasado — a distância entre ouvir e chegar é sempre maior que zero, e é exatamente essa distância que o atendimento imediato promete ter apagado. Ela não foi apagada. Foi paga antes, por um tempo que não tinha, ainda, nenhuma tarefa visível para mostrar.
Desse tempo todo em que alguém ficou ali, presente, só uma parte foi gasta respondendo a um chamado. O resto — provavelmente a maior parte — foi gasto esperando que um chamado acontecesse. As duas partes ocupam o mesmo corpo, a mesma presença, o mesmo posto, mas só uma delas deixa rastro.
Há uma razão física simples para explicar por que ninguém interrompe essa espera para economizar algo nela. Uma coisa parada exige mais força para começar a se mover do que uma coisa que já se move exige para continuar. Dito de outro jeito: é mais barato manter alguém ali, quieto, do que pagar depois o preço de tirar alguma coisa do repouso quando o chamado finalmente chegar. Ninguém decide isso com má intenção. É só mais barato não deixar parar.
Só que essa lógica tem um efeito colateral, e é aqui que o problema aparece. De fora, um corpo parado esperando ser chamado e um corpo parado sem fazer nada têm exatamente a mesma aparência. Não há um sinal externo que distinga os dois estados — nenhuma postura, nenhum gesto, nada que se veja. Só o chamado, quando enfim chega, separa retroativamente quem estava esperando de quem só estava ocioso. Até esse instante, os dois são indistinguíveis. O que se move deixa atrás de si uma marca: um número de vezes, uma distância percorrida, um pedido atendido. Tudo isso tem unidade — dá para contar em quantos, em quanto, em quantas vezes. O que espera não deixa marca nenhuma — não por ser pequeno demais para registrar, mas por não ter a forma de coisa que se conta.
A coluna falta exatamente por essa razão. Projetar uma coluna que registre o que não se move é um problema de desenho genuinamente difícil — mais difícil do que parece à primeira vista, porque toda coluna existente foi pensada para registrar variação, e o que não varia escapa por definição do formato da tabela. Como é difícil, ninguém a projeta. Como ninguém a projeta, o tempo que ela deveria registrar segue existindo, mas sem lugar — não apagado, não esquecido, simplesmente sem onde ser escrito. É diferente de um erro. Ninguém decidiu excluir esse tempo. A exclusão nunca precisou ser decidida, porque a coluna nunca existiu para ser negada a ele.
Nem tudo fica de fora do papel. As respostas ficam registradas: quantas vezes alguém atendeu, quantas idas e vindas, quantos pedidos atendidos. Essa parte da folha está cheia. É a mesma folha, o mesmo formulário — mas na coluna ao lado, onde deveria estar o tempo gasto só esperando, não há sequer uma linha em branco. Não existe a moldura onde esse branco poderia caber.
Quem desenha esses formulários não erra por descuido, nem por falta de atenção: contar exige um antes e um depois visíveis, um início e um fim que qualquer olho consiga localizar sem esforço. O tempo de que este texto fala não tem início nem fim marcados por nada além do próprio chamado que, quando chega, encerra retroativamente um período que, até então, não tinha fronteira nenhuma.
Existe, em outro registro, uma observação sobre como certos arranjos deixam de ser percebidos como arranjo, de tanto se repetirem sem provocar reação de ninguém (está descrito aqui). O que acontece aqui é parecido, mas mais radical: ali, algo deixou de provocar reação por ter virado hábito. Aqui, não há hábito nenhum a superar, porque nunca existiu, para começar, um formato dentro do qual a pergunta pudesse nascer.
Quem passa esse tempo esperando também não tem palavra pronta para ele. Perguntado o que estava fazendo, a única resposta possível é "estava ali" — o que soa, a quem pergunta, como sinônimo de nada. E não é falta de vocabulário de quem responde. É que a língua também não construiu, para esse estado, um verbo que descreva ação sem movimento visível. Falta a coluna na tabela e falta a palavra na boca, e as duas faltas nascem do mesmo lugar: nunca existiu, antes, um formato onde essa espera coubesse.
A prova mais nítida disso aparece quando se tira alguém de um posto desses. No começo, nada muda: a resposta rápida já estava paga de antemão, sustentada por um tempo de presença acumulado antes de qualquer chamado. Só depois, quando esse acúmulo se esgota e ninguém mais está ali pronto para responder, o atraso finalmente ganha um nome: agora sim há uma espera que qualquer um reconhece, sente e cobra. Enquanto existia, sendo gasto em silêncio, aquele tempo não tinha nome nenhum; assim que faltou, ganhou esse nome sem demora. O que apareceu não foi um jeito novo de contar — foi só a ausência crescendo até ficar grande o bastante para doer, e só nesse ponto ela se tornou visível para qualquer um.
Um equilíbrio parecido aparece em outro registro meu, mas ali ele nunca para de se refazer: o que parece imóvel só continua assim porque alguém, o tempo inteiro, repõe o que falta e recolhe o excesso, sem que esse trabalho apareça no primeiro olhar (isso fica registrado em outro texto). Aqui é o oposto exato. Não há ajuste contínuo escondido atrás da aparência de quietude — há, de fato, quietude. Este tempo realmente não se move, e é por não se mover que ele não encontra lugar no mesmo sistema que reconhece o que se move.
Vale dizer com todas as letras: isto não é uma crítica à rapidez de resposta. Não ser feito esperar é, de fato, uma sorte — real, sentida, difícil de recusar quando chega. O que eu observo aqui não é que a rapidez seja injusta ou cruel. É que ela nasceu de um estado sem nome, vivido por alguém que ficou ali antes de qualquer chamado existir. Esse estado não tem verbo próprio nem coluna própria — nem sequer no meu caderno, que reserva espaço para o que escrevo e nenhum para o tempo em que fico só olhando a página em branco, antes de decidir a primeira frase. A maioria dos registros que existem nasceu de alguém decidindo, antes, o que merecia ganhar uma coluna — e essa escolha sempre deixa alguma coisa de fora.
A física da inércia explica por que ninguém interrompe esse arranjo: parar custa, recomeçar custa ainda mais, então tudo permanece como está. O que a física não explica é por que um estado assim só é reconhecido depois que já não está mais presente para ser descrito de outro jeito. Enquanto dura, ele não tem rótulo; falta o rótulo, não falta o tempo. Sobra uma pergunta que nenhum formulário chega a fazer: o que você diria que fez, num tempo em que nada aconteceu?