A que horas chega a maré de quem está ao seu lado?
A maré sobe na mesma praia, e não há mão nenhuma puxando corda lá embaixo. Ela chega mais alta em certas horas do dia e mais baixa em outras, e a água alta e a água baixa são, as duas, a mesma maré: não existe uma que seja a de verdade, com a outra fazendo o papel de cópia malfeita. É a lua que puxa, é o formato da baía que responde, é um conjunto de coisas que não perguntam a ninguém a que horas você vai chegar à beira d'água para medir.
Com um valor acontece algo parecido. A mesma coisa, olhada de dois pontos diferentes, sai com dois números diferentes — e os dois números saem certos. Não há um que calculou errado e outro que acertou. Cada ponto fez a conta com o que tinha diante de si, e o que tinha diante de si era, de fato, aquilo: não uma cópia torta, não um erro de leitura. Perguntar qual dos dois números é o verdadeiro é como perguntar qual das duas marés é a maré de verdade. A pergunta nasce sem chão.
Se o problema fosse só esse, seria fácil de resolver. Dois números certos, um do lado do outro — bastaria olhar os dois e decidir o que fazer com a diferença. O problema é outro: você nunca chega a olhar os dois ao mesmo tempo. A sua conta está diante de você, clara, com todos os dígitos no lugar. A conta de quem está ao seu lado — logo ali ao lado, bem perto, a um passo de distância — não está escondida atrás de nada. Simplesmente não existe um lugar onde as duas contas possam ser colocadas juntas para serem lidas juntas. Ninguém tirou essa mesa da sala. Ela nunca foi construída.
Registro isso sem procurar quem construiu a sala assim. Ninguém decidiu, num único gesto, que a sua água devia subir mais do que a alheia. Cada valor nasceu do próprio fundamento em que apareceu, e nenhum desses fundamentos é falso. A honestidade dos dois lados nunca esteve em questão. Em questão está a mesa que nunca existiu — o ponto onde os dois números poderiam ter sido postos lado a lado.
Por isso "caro" não é uma palavra que sobrevive sozinha. "Barato" também não. As duas precisam de uma segunda mão, com um segundo número, pousada ao lado da primeira, para que a comparação aconteça. Sem essa segunda mão, a frase não tem como se formar — não porque falte coragem para dizer que algo custou muito, mas porque falta o próprio material de que a frase seria feita. Você pode sentir que pagou demais. Não pode dizer que pagou mais do que a pessoa ao lado, porque não sabe quanto essa pessoa pagou, e não existe um caminho comum entre os dois números por onde essa informação passe.
Há uma consequência menor aqui, fácil de não notar. Reclamar de um valor também precisa de uma segunda mão. Uma queixa supõe um contraste: isto custou mais do que aquilo, ou mais do que devia. Sem o outro número ao lado, a insatisfação não encontra a frase que a carregaria. Ela fica como um peso sem nome — sentido, mas sem lugar onde ser dito, porque não há para onde apontar.
O que resta comparável é o próprio histórico. Ontem e hoje, o mesmo lugar visitado duas vezes, dois números seus, um ao lado do outro: essa comparação é possível porque os dois números vieram do mesmo ponto de observação, que é você. Mas isso não é comparar com outra pessoa. É medir a mesma maré duas vezes, na mesma praia, com o mesmo relógio. Dá para dizer se a água subiu ou desceu desde ontem. Não dá para dizer se, nesta mesma praia, a água de quem chegou num outro momento está mais alta ou mais baixa que a sua, agora.
O arquivo em que estas anotações vão se acumulando carrega uma versão pequena do mesmo problema. Sei quem leu cada texto guardado nele. Não sei se, para quem leu, os textos vieram na mesma ordem em que aparecem para mim — nem se o que ficou grifado como importante ali é o que eu grifaria aqui. Duas leituras certas, cada uma na sua tela, sem mesa em comum onde as duas telas se encontrem.
Às vezes, por acaso, duas pessoas mostram o que têm nas mãos ao mesmo tempo. Não porque exista um procedimento para isso — porque coincidiram no mesmo corredor, na mesma conversa, no mesmo instante de baixar a guarda. E aí, só aí, aparece uma diferença. Alguém vê o número do outro, o outro vê o número de alguém, e por um instante os dois números estão finalmente lado a lado. Esse encontro não foi arranjado por nada que estivesse cuidando disso. O sistema não separou uma mesa para os dois se sentarem. Foi o acaso que sentou os dois lado a lado, por um minuto, antes de cada um voltar para o lugar de onde tinha vindo.
Mesmo depois de a diferença aparecer, ninguém consegue dizer qual dos dois números estava certo — porque, de novo, os dois estavam certos. As duas contas foram feitas com honestidade, em dois pontos que nunca tinham se tocado antes daquele minuto de coincidência.
Um caso vizinho a este já foi anotado por aqui: um número alto que alguém deixou ali, à espera de ganhar um traço por cima — embora nem todo número alto que acaba assim tenha sido posto ali de propósito. Naquele caso havia algo esperando para ser comparado: um segundo número, parado ao lado do primeiro, pronto para a comparação acontecer diante de quem olhasse — e nem sempre dá para saber de onde ele veio. Aqui é diferente. Não há nenhum outro número esperando ao lado. Não existe, em canto nenhum, um segundo número que se deixe ver. Esse buraco tem outro formato. Lá, o número comparável já estava posto, e ainda precisava ter ficado um tempo sozinho antes de receber o traço. Aqui, o número comparável nunca chegou a existir — nem existe onde ele pudesse ter sido escrito.
Longe desse, há também o caso de algo pronto que não tinha nenhum obstáculo real para deixar o lugar onde estava, e que mesmo assim continuou ali. Aquele caso era sobre um julgamento que ninguém chegou a conferir com nada. Aqui não falta prova: as duas contas existem, inteiras, cada uma no seu lugar. Falta o lugar onde as duas poderiam ser postas juntas. A pergunta não é se a sua conta saiu bem. É se existe algum ponto no mundo onde a sua conta e a conta de quem está na fila vizinha possam, finalmente, se tocar.
Ainda quando o acaso deixa a diferença aparecer, o que se descobre não muda o número de ninguém. As contas continuam certas como estavam antes. A pessoa que viu o número do outro pode carregar essa diferença como uma sensação, um desconforto sem nome, mas não tem para onde entregá-la — porque toda queixa pressupõe alguém do outro lado que tenha calculado errado, e aqui ninguém calculou errado. O encontro passa, e cada um leva o próprio número de volta consigo; o minuto em que os dois números estiveram lado a lado não deixa rastro em parte alguma, a não ser na lembrança de quem estava ali.
Talvez esse ponto não exista. Talvez a mesma lua puxe a mesma maré para os dois, na mesma praia — e o que muda não seja a lua, nem a água, mas a hora em que cada um chega para olhar. A lua não decide quem vê a maré cheia e quem vê a vazia; ela só continua puxando, e cada um chega no momento em que chega. Dá para aprender a hora em que essa água costuma subir. Dá até para prever, com alguma precisão, o próximo número que aparece de um lado só. O que não dá é colocar esse número ao lado do número de outra pessoa e dizer, com a mesma certeza, qual dos dois é mais alto — porque essa mesa não existe, e ninguém está construindo uma.
Que horas são, agora, na maré de quem está ao seu lado, enquanto a sua sobe, ou desce, e ninguém ali está puxando corda alguma?