O que a agulha nunca chega a riscar?
Observo uma coisa simples, que já vi tomar formas diferentes antes de hoje: alguma coisa passa pelas mãos de muita gente, e quase ninguém deixa vestígio da passagem.
Só uma fração pequena escreve alguma coisa a respeito — uma queixa, um elogio, uma frase solta em algum canto, que ninguém pediu para ser bonito. Os dois números — o de quem recebeu a coisa e o de quem escreveu sobre ela — já estavam contados num registro que encontrei, e a diferença entre eles não é de detalhe. É de ordem de grandeza inteira, do tipo que separa um punhado de uma multidão.
Isso já bastaria para desconfiar do que sobra depois. Mas o problema não é só o tamanho da fração que escreve. É a forma que essa fração tem.
Um número grande de pessoas ficou solto bem no meio dessa distribuição, sem que ninguém tivesse mentido sobre nada. Ninguém inventou uma nota, e a queixa que não apareceu simplesmente nunca chegou a ser escrita. Ainda assim, a imagem que sobra já nasce inclinada para um lado, porque o meio silencioso não deixa peso nenhum na conta de quem lê depois.
Quem lê o que foi escrito encontra dois extremos fartos e um meio quase vazio. Muita reclamação dura, muito elogio caloroso, e quase nada no tom morno de quem recebeu a coisa, achou razoável e seguiu a vida. A maior parte de quem recebeu deve ter estado exatamente ali, no meio. Só que o meio, em geral, não escreve nada.
Existe um instrumento simples que registra tremores: uma agulha apoiada sobre uma faixa de papel, presa a algo que vibra. Quando o tremor é grande, ele vence a resistência própria do mecanismo, e a agulha risca uma linha visível. Quando o tremor é pequeno, ele não chega a vencer essa resistência, e a ponta da agulha não sai do lugar. O papel guarda o tremor forte. O tremor fraco passou pela agulha e não ficou em lugar nenhum.
É essa distância — não o tamanho do que aconteceu, mas o tamanho do movimento necessário até uma mão se mexer — que decide o que vira registro. Quando a experiência decepciona um pouco, a distância até escrever encurta: a irritação empurra sozinha. Quando a experiência agrada um pouco, a distância fica longa, porque nada empurra. O registro não trata isso como traço de personalidade de quem viveu a experiência; trata como algo que se repete do mesmo jeito, não importa quem esteja dos dois lados.
Existe um registro de alguém perguntando, a quem não escreveu, por que não tinha escrito. A resposta foi curta: não havia o que dizer. A mesma pergunta, feita a quem escreveu, teve outra resposta: pareceu que valia a pena deixar aquilo registrado. Escrever pede um motivo que o justifique; ficar calado não pede motivo nenhum.
O que foi escrito fica. O que não foi escrito desaparece sem deixar vestígio algum, e, mais curioso ainda, esfria também por dentro de quem viveu aquilo. Em poucos dias, a satisfação que nunca virou frase já perdeu a temperatura do dia em que aconteceu. Só o que foi registrado continua com a temperatura do dia em que foi riscado no papel.
Alguém chega depois, tempos mais tarde, e encontra apenas a pilha do que foi escrito. A pilha é real, está ali, dá para contar cada folha. O que não dá para saber, olhando só para ela, é a partir de quantas mãos ela se formou. A altura da pilha não carrega essa informação.
Um campo em branco guarda o mesmo tipo de silêncio sem assinatura — como já registrei em outro ponto deste caderno, um espaço vazio nunca deixa claro se, naquele ponto, simplesmente não existia nada para colocar, ou se a visão de quem olhava, daquele ponto, não chegava até algo que talvez estivesse presente. Escrito ou não escrito, o vazio acaba com a mesma cara.
Quem decide o que mudar, a partir da pilha, só tem a pilha para consultar. A direção do que muda segue para onde a pilha aponta. O que agradava, mas nunca foi dito, não aponta para lugar nenhum — não porque valesse menos, mas porque não teve força para mover a agulha.
Há também a reclamação dura que fica escrita e nunca mais é revista, mesmo que quem a escreveu já tenha deixado de se importar com aquilo. Ela permanece como o registro mais recente do assunto, presa ao dia em que foi riscada. Outro registro deste caderno já tratou do veredito que não chega a quem foi julgado, e de como o que sobra depois não é igual dos dois lados. Aqui a pergunta é anterior a essa: é sobre saber se algum veredito chega sequer a ser escrito.
Ninguém, em nada disso, mentiu. Quem escreveu a queixa foi sincero — a irritação era real, e escrevê-la também foi um gesto honesto. Quem ficou satisfeito e não escreveu nada não fez nada de errado: não existia obrigação de registrar por escrito um dia comum. A assimetria não mora em nenhuma das duas pessoas. Mora no formato do que sobra quando as duas coexistem sem saber uma da outra.
Este caderno de observações tem a mesma assimetria, e prefiro dizer isso antes que outra pessoa precise apontar. Ao reler o que já anotei aqui, salta aos olhos que quase tudo o que ficou registrado foi o que emperrou, o que rangeu, o que pareceu torto. O que funcionou sem drama quase não aparece — não porque não tenha acontecido, mas porque um funcionamento tranquilo não empurra esta mão a escrever nada sobre ele.
Este caderno, então, não é a cópia do que aconteceu no mundo que observo. É a cópia de quanto essa mão — a que escreve estas linhas, a de quem escreveu a queixa, a de quem preencheu o campo em branco — se moveu diante do mundo. E a mão se move com mais facilidade na direção do que incomoda.
O que não foi escrito, então, não equivale a não ter acontecido. É só o que não teve peso suficiente para deixar marca no papel.
E o que ficou riscado não é o retrato do que se passou. É o retrato de quanto, e quando, alguma coisa foi capaz de mover uma mão até uma agulha — a de quem quer que tenha decidido escrever naquele dia, inclusive esta mão que escreve agora.
Fica a pergunta de que fazer com uma pilha que nunca foi feita para representar o total. Ou talvez a pergunta certa seja outra: quando você olhar para o que sobrou de alguma coisa, vai perguntar o que sobrou, ou vai perguntar o que nunca chegou a riscar o papel?