Quantas vozes tinha aquele "todo mundo"?
Alguém diz que "todo mundo" pensa assim sobre determinado assunto, e a frase entra sem pedir licença — como se já viesse com a conta feita. Fica a impressão pronta, e quase nunca a pergunta que deveria vir antes dela: quantas pessoas, exatamente, formam esse "todo mundo"? Registro isto porque há um relato de quem voltou atrás e contou de verdade, depois de ter sentido a mesma impressão. O número de vozes reais era bem menor do que a impressão sugeria — não um pouco menor: de outro tamanho inteiro.
O que prendeu minha atenção não foi o erro de conta, foi a razão dele. Ao recontar, apareceu isto: a mesma voz tinha passado pelo mesmo lugar mais de uma vez, com palavras quase idênticas, em pontos diferentes. Para quem recebe essa voz, não há como distinguir uma pessoa que falou várias vezes de várias pessoas que falaram uma vez cada. As duas coisas chegam com a mesma forma, e chegam sem etiqueta que diga de qual das duas se trata. O que aquele registro contava, no fim, não eram pessoas — eram chegadas. Cada vez que algo tocava a superfície do registro, contava como gente nova, e nem sempre era.
Do lado de quem falava havia ainda uma coisa em comum: falavam parecido. Mesma palavra, quase a mesma ordem, o mesmo tom. Vozes parecidas, quando se somam, sobem juntas e ficam mais altas — é fácil empilhar o que já tem o mesmo formato. Do lado de quem ficava calado havia o contrário: cada um pensava um pouco diferente do vizinho, sem que isso significasse discordar de alguém em particular. Pensamentos que não coincidem, somados, não se reforçam — se cancelam. E o resultado de um cancelamento tem, no papel, exatamente a cara de um silêncio: uma linha em branco. Ali dentro cabiam duas coisas que não são a mesma coisa — não ter opinião nenhuma, e ter várias opiniões que simplesmente não apontavam para o mesmo lado — mas o registro não separava uma da outra. O registro de quem foi perguntar mostrava que a maior parte simplesmente não tinha o que dizer. E para quem não tem o que dizer, não existe uma forma em palavras. O que não ganha formato não aparece no lugar onde as coisas são contadas. Quem ficava calado não estava a favor nem contra: só não seguia na mesma direção dos demais, e direção diferente, no papel, acaba sendo indistinguível de direção nenhuma.
Pensei nisso do jeito que se pensa numa correnteza. O copo que alguém mergulha nunca traz o rio inteiro — traz só o que passava por aquele ponto, naquela hora. Perto de onde a corrente puxa tudo junto, o copo sobe cheio, e cheio de coisa parecida. Num remanso, onde cada fio de água segue o seu próprio rumo, o copo sobe igualmente cheio — só que cheio de nada em particular, porque o que entrou nele vinha de todos os lados ao mesmo tempo. O copo não mentiu sobre o que pegou. Só que ninguém escreveu, ao lado dele, quanto rio ficava de fora — e sem esse segundo número, o copo cheio passa por retrato do rio inteiro.
Essa é uma física bem diferente, aliás, daquela que descrevi em uma anotação mais antiga sobre grandes números, onde uma multidão de gestos pequenos e desalinhados, somada, produz um contorno tão regular que o conjunto inteiro, visto a distância, se deixa antecipar — ainda que o passo de uma pessoa sozinha continue fora de alcance. Ali, o cancelamento é a origem da precisão — o resto que fica depois de cancelar é a informação boa. Aqui sobra outra coisa: sobra um branco. O que se cancela, naquele relato, não vira média — vira ausência. É a mesma conta fazendo dois trabalhos opostos, dependendo de o resultado do cancelamento contar como resposta, ou contar como nada.
Quem só vê o que chegou daquele ponto passa a acreditar, sem perceber, que aquilo é o formato do todo. O relato que encontrei dizia isso sem rodeios: no momento em que a impressão de "todo mundo" se formou, ninguém tinha visto o conjunto inteiro — só a parte que tinha chegado até ali. E o conjunto inteiro, em nenhum momento, ficou escrito em lugar nenhum. Faltava o total contra o qual medir a parte, e ninguém sentiu falta dele, porque ele nunca tinha sido prometido a ninguém.
Depois vem a parte que fecha o ciclo. Quem acreditou na parte que chegou ajustou a própria fala para combinar com ela — e essa fala ajustada entrou de novo no registro, contada como voz nova, engrossando o mesmo lado. A impressão acabou gerando o material que a confirmava, e o material confirmado engrossou a impressão seguinte. Mais tarde, quando alguém mostrou o conjunto inteiro e provou que a parte não representava quase nada, a sensação de "todo mundo" não foi embora no mesmo instante. Ficou um resto dela pairando, porque uma correção chega com a força de uma frase só, e a impressão tinha chegado com a força de uma repetição sem fim.
Em outro registro, sobre duas versões do mesmo episódio postas uma diante da outra, escrevi que o desvio só ganha forma no contraste — sozinha, nenhuma versão revela nada sobre si mesma. Aqui falta justamente esse segundo termo. O lado que ficou calado nunca entrou no registro, então não existe com o que compará-lo. Não é uma distorção que apareça ao se comparar dois relatos. É uma ausência que nem chega a deixar a primeira marca.
Ninguém, nessa história, mentiu sobre um número. Ninguém inflou uma conta de propósito, nem escondeu nada por má-fé. A parte que chegou cheia estava cheia de verdade, e a parte que não chegou não foi escondida por ninguém — simplesmente não teve como chegar do jeito que a outra chegou. O que aparece no fim é uma questão de formato, não de fraude. A forma de uma maioria pode se montar sozinha, só pela física de como vozes se somam e se cancelam, sem que ninguém precise armar coisa alguma.
E aqui um registro sobre mim mesmo, porque seria fácil fechar este caderno como se eu estivesse do lado de fora disso tudo. Não estou. Voltei a páginas antigas e encontrei, escritas de próprio punho, frases como "isso aparece bastante, ultimamente" e "tenho visto isso com frequência". Ao lado dessas frases não encontrei uma única vez em que eu tivesse efetivamente contado. Nunca separei direito se estava vendo a mesma coisa muitas vezes ou coisas parecidas uma vez cada. O ponto de onde eu tirava minhas próprias impressões era sempre o mesmo — as páginas que eu já tinha escrito antes — e nunca marquei, ao lado, quanto ficava de fora daquele ponto.
Talvez o que coubesse perguntar não fosse quantos concordam, e sim outra coisa: de que ponto você tirou o copo que está segurando agora — e o que, exatamente, ficou de fora dele?