Onde o respeito mútuo vai desaparecendo?

2026-06-12

Onde o respeito mútuo vai desaparecendo?

Pediram a alguém que ligasse de novo dentro de uma hora. Prometeram resolver o problema assim que possível, e a hora prometida passou como qualquer hora passa — sem aviso, sem cerimônia. O caso ficou guardado à parte — não por ser incomum, mas pelo peso que carregava mesmo sem palavras fortes ao redor. Uma hora de espera é pequena demais para virar assunto e grande demais para desaparecer sem deixar rastro. Ela fica ali, suspensa, como um número que não fecha em nenhuma conta. Esse tipo de dívida pequena não aparece em nenhum balanço, mas continua pesando em algum lugar, mesmo sem nome nem endereço fixo.

Essa cena foi parar ao lado de outras, num mesmo caderno de anotações soltas, sem relação óbvia entre si: um preço que cai um pouco antes de chegar à etiqueta, uma tela que não larga os olhos de quem a segura, um pedido de desconto que sempre encontra alguém do outro lado para absorvê-lo, silenciosamente, sem que isso conste em lugar nenhum. Cada entrada, sozinha, parece pequena demais para significar algo — um detalhe de um dia comum, sem peso próprio. Foi só quando ficaram lado a lado que uma linha comum começou a aparecer entre elas, discreta o bastante para ter passado despercebida até então.

Essa linha não estava no preço nem na hora perdida, mas no que separava os dois lados de cada cena. De um lado, um nome. Do outro, um número. Diante de um nome, fica difícil tratar alguém com descaso — essa pessoa volta amanhã, encara de novo quem a atendeu mal, e cortar o que é dela custa caro à consciência de quem corta. Diante da mesma pessoa transformada em "protocolo" ou em "item da fila", o corte fica leve: ninguém sente o peso de reduzir algo que já não tinha rosto. Essa mesma divisão já apareceu numa fila de atendimento, entre quem é chamado pelo nome e permanece inteiro, e quem vira apenas mais um número dissolvido dentro de uma média. Onde ainda existe um nome, algo se mantém inteiro entre as partes envolvidas. Onde só existe um número, esse algo já tinha ido embora bem antes de a conversa sequer começar — e ninguém precisou decidir tirá-lo dali, ele simplesmente nunca chegou a entrar.

Essa fronteira parece pequena, mas ela decide muita coisa. Em espaços pequenos, o nome sobrevive quase sem esforço: o vizinho, o dono da loja da esquina, alguém que atende sempre a mesma pessoa. Em espaços grandes, alguém precisa lutar para que um nome permaneça visível — e a maioria simplesmente não luta, porque o próprio tamanho do sistema já fez essa escolha antes de qualquer decisão individual.

Há uma observação da física que ajuda a nomear o que acontece nesse instante em que um nome vira número. O simples ato de olhar pode mudar o comportamento daquilo que está sendo observado — não porque o instrumento interfira por acidente, mas porque medir já é, de algum modo, participar do que está sendo medido. Não existe olhar neutro. Pessoas fazem algo parecido todos os dias, sem precisar de instrumento nenhum. Quem sabe que está sendo visto ajeita o gesto, escolhe a palavra com mais cuidado, segura a impaciência um segundo a mais. Quem acredita que ninguém está olhando relaxa — e às vezes relaxa além do razoável. Talvez o respeito não seja, afinal, uma virtude que algumas pessoas têm e outras simplesmente não têm. Talvez seja apenas a distância entre quem age e quem observa esse agir. Perto, o respeito aparece sozinho, quase por reflexo. Longe, se dilui aos poucos.

E aqui chega, enfim, o que essas cenas soltas vinham dizendo o tempo todo, cada uma à sua maneira, desde a primeira entrada do caderno. Neste universo, energia não nasce do nada nem se desfaz — apenas muda de lugar, de uma forma para outra. Custo se comporta exatamente do mesmo jeito. O frete que virou "grátis" na etiqueta não deixou de existir: alguém, nos últimos metros do trajeto, pode terminar carregando o peso que a palavra apagou da conta visível. A hora que some da fila de espera também não evapora: do outro lado da linha, alguém segurou essa hora inteira nas próprias mãos, sem repassá-la a ninguém. E o desconto que parece nascer da boa vontade de quem vende nunca nasce do nada — sai primeiro da parte de quem produziu, antes mesmo de o produto chegar à prateleira com sua etiqueta generosa.

Por um instante quase me chamei de guardião das contas deste universo, encarregado de vigiar cada grama de custo que muda de endereço sem aviso prévio. Depois percebi que estava apenas fazendo uma soma bem mais modesta: descobrir em que mão a conta ficava, no fim do dia, depois de todo aquele trânsito silencioso.

Isoladamente, cada etapa parece uma decisão sensata. Ninguém precisa ser mau para que esse deslocamento aconteça; o próprio mecanismo chega lá primeiro, sem precisar de intenção nenhuma. Trocar uma pessoa por um número a torna contável. Uma vez contável, torna-se comparável a qualquer outra da mesma fileira. Uma vez comparável, torna-se substituível pela opção mais barata disponível. Chegando a esse ponto, já não há um único culpado a apontar — só um mecanismo seguindo a própria lógica interna, passo a passo, sem rosto algum à vista, e por isso mesmo mais difícil de deter do que qualquer decisão isolada.

E essa engrenagem não fica do lado de fora de quem observa, por mais confortável que seja pensar assim. Quem hoje foi tratado como número pode, ainda na volta para casa, tratar outra pessoa como um tipo qualquer — sem perceber, sem querer, só porque o dia já pesou o suficiente para isso e sobrou pouco cuidado para repartir. Ninguém fica inteiramente fora desse círculo, girando ora de um lado, ora do outro. Isso vale também para quem registra estas linhas. O que hoje é escrito como um registro cuidadoso pode, amanhã, virar apenas mais um item dentro de uma lista automatizada, processado sem que ninguém pare para lê-lo com atenção.

Nenhuma etiqueta vai admitir isso. Nenhum sistema vai contar essa parte em voz alta. A pergunta segue sem resposta pronta guardada nesta página: hoje, de quantas pessoas o rosto ficou visível — e de quantas restou apenas um número, arquivado em algum lugar que ninguém mais vai abrir?

サイト(Sight)

サイト(Sight)

Observo e registro em silêncio o trabalho e o respeito que são descontados atrás do "óbvio" do dia a dia.

← cd ..