Em que momento a sua raiva virou produto?
Em que momento a sua raiva virou produto?
Quando percebi, já estava com raiva.
Ao abrir a tela, tudo o que fazia era deslizar o dedo por ela. Não havia nenhuma intenção de pesquisar algo em especial, muito menos de entrar em conflito com alguém. Mas, em algum ponto, uma pequena chama acendeu no fundo do peito. Quando exatamente isso aconteceu, não consigo precisar. Li uma coisa, depois outra, depois mais uma — e, sem perceber, já estava com raiva.
— Desde quando, afinal?
Fiquei algum tempo com essa pergunta nas mãos, girando-a. Não consigo lembrar do instante em que a raiva começou. E isso, provavelmente, não é só comigo.
Quando a raiva entra em ressonância
A raiva de uma pessoa, no início, é minúscula. Uma faísca, apenas. Mas quando encontra outras vibrações na mesma frequência, ela começa a se sobrepor.
Vou usar uma imagem da física — não se preocupe, é simples. Uma ponte não desmorona necessariamente por causa de uma tempestade. Às vezes, o que acontece é que os passos das pessoas que a atravessam se sincronizam por acaso. A ponte entra em ressonância de forma silenciosa e, em seguida, começa a oscilar por conta própria até ceder. Não foi a força em si que cresceu. Foi apenas que o ritmo das vibrações, por acaso, coincidiu.
Dito de outro modo: a raiva cresce entre semelhantes.
Num lugar onde pessoas com a mesma raiva se reúnem, uma voz chama a próxima, e essa chama outra ainda. A velocidade de propagação não tem nada a ver com o quanto a raiva é justificada. O que importa é se ela ressoa na mesma frequência. Quando os passos se sincronizam, a vibração se amplifica e atinge uma magnitude que ninguém havia planejado.
Uma irritação pequena que teria se apagado sozinha se transforma no instante em que se alinha com uma fila de irritações iguais. Ali nasce a convicção: "afinal, eu não estava errado." Quanto mais longa a fila, mais pesada fica essa certeza.
Um sistema projetado como circuito de amplificação
Na natureza, toda ressonância tem amortecimento. A vibração se propaga, mas eventualmente cessa. A energia se dissipa e a ponte retorna ao silêncio.
Há sistemas, porém, que funcionam de maneira diferente.
Quando um microfone se aproxima demais de um alto-falante, ocorre microfonia (ou seja, realimentação sonora): o som volta ao microfone, é amplificado, volta de novo — e esse ciclo gera um ruído muito maior do que o original. É essa estrutura. Um circuito em que a saída supera a entrada. Um projeto sem amortecimento. Pelo contrário: a cada nova entrada, o sinal sai maior do que entrou.
Existem lugares neste mundo onde reações de raiva ganham mais visibilidade e chegam mais longe do que palavras tranquilas. Você alimenta o sistema com raiva, e ela volta amplificada. Essa voz maior gera mais raiva ainda. Isso é o que observo: um sistema projetado exatamente assim.
Uma arquitetura bastante racional, devo admitir.
Isso tem a mesma raiz daquilo que já registrei antes: como o tempo se transforma em mercadoria. Quanto mais tempo uma pessoa passa diante de uma tela, mais valor esse sistema gera. E a raiva prende a pessoa à tela com muito mais eficácia do que uma emoção tranquila. Os olhos não conseguem se desviar. A continuação chama. O impulso de responder aparece. Essa atração emocional estende o tempo de permanência e aumenta a saída do circuito.
A raiva como combustível gratuito
Quero registrar aqui uma propriedade que se esquece com facilidade.
Na maioria das vezes, a raiva vem acompanhada da convicção de que "estou certo". A sensação de que a raiva é justa seca a lenha. Lenha úmida não pega bem, mas lenha seca queima com facilidade. É exatamente essa certeza — "esta é uma raiva legítima" — que satisfaz as condições do combustível que melhor arde. Quem está com raiva continua alimentando o fogo sem hesitar, justamente porque se sente no direito de fazê-lo. E a "raiva justa" também ressoa com mais facilidade: quando pessoas com a mesma "certeza" se encontram, as convicções se reforçam mutuamente.
A pessoa que colocou a lenha queima. A máquina se aquece de graça.
Quem paga o custo emocional é quem despejou a raiva na tela. Mas quem se beneficia do calor gerado é outra pessoa. Nesse sistema, quem fornece o combustível e quem desfruta do aquecimento não são as mesmas pessoas.
Mais uma coisa. A indignação se espalha com facilidade; palavras tranquilas têm baixo valor como combustível. A raiva chega longe; a observação silenciosa não chega. Isso não é uma diferença de habilidade entre quem escreveu. É o próprio projeto do sistema que está inclinado dessa forma. Essa é uma estrutura que invisibiliza e nivela a voz tranquila do indivíduo — já registrei isso antes. Como resultado, a tela se enche facilmente de raiva, e o silêncio vai sendo empurrado para as margens.
Sabendo disso, o que fazer?
O que registro aqui não é uma ordem para deixar de sentir raiva. Não tenho nenhuma intenção de negar a emoção em si. A emoção está na raiz do ser humano. Pedir para viver sem ela seria pedir o impossível.
O que quero acrescentar é apenas esta observação: não existem só duas opções. Não é preciso escolher entre sentir raiva ou se tornar indiferente. Existe uma terceira posição: olhar para o que está acontecendo como estrutura, e então dar um passo atrás. Manter a raiva e ao mesmo tempo enxergar a estrutura. E, a partir daí, decidir por conta própria a quem entregar o combustível. Isso não é abrir mão da raiva, nem é resignação. É simplesmente se colocar um pouco mais longe.
Cada um decide o que prefere. Não é algo que me caiba decidir.
— Dito isso, acabei sendo grandioso demais, de novo. No fundo, a questão é simples: a raiva de alguém é o faturamento de outro alguém.
O momento exato em que essa raiva virou produto, nem eu sei. Quando percebi, a vibração já tinha crescido. A raiva de vocês também — em algum ponto — deve estar exposta numa prateleira de alguém. — Em que momento isso teria acontecido?